terça-feira, 27 de abril de 2010

Vulnerabilidades das metrópoles

Vulnerabilidades das metrópoles

Projeto Temático investiga dinâmica sociodemográfica das regiões de Campinas e Santos e gera base de dados inédita para estudos sobre vulnerabilidade em relação à exclusão socioespacial, meio ambiente, família e mobilidade urbana

Por Fábio de Castro

Agência FAPESP – Altamente urbanizadas, as regiões metropolitanas de Campinas e Santos se expandiram para os municípios vizinhos, nos quais as taxas de crescimento são muito mais elevadas do que nas cidades centrais. Apesar da importância econômica das duas regiões, as características peculiares de sua dinâmica de distribuição espacial e mobilidade populacional foram pouco estudadas até agora, por falta de dados de base.

Durante os últimos cinco anos, um grupo de pesquisadores ligados ao Núcleo de Estudos de População (Nepo) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) se dedicou a preencher essa lacuna, levantando um amplo conjunto de informações e análises sobre a dinâmica sociodemográfica nas duas regiões.

Coordenado por José Marcos Pinto da Cunha – pesquisador do Nepo e professor do Departamento de Demografia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp –, o Projeto Temático "Dinâmica intrametropolitana e vulnerabilidade nas metrópoles do interior paulista: Campinas e Santos" teve participação de pelo menos 12 pesquisadores e uma dezena de pós-graduandos, além de assistentes técnicos, estagiários e bolsistas de iniciação científica.

A pesquisa explorou várias linhas de investigação em torno de uma questão central: desvendar os processos sociodemográficos que explicam os impactos do padrão de crescimento dessas regiões metropolitanas sobre a população local. Para avaliar as diferentes capacidades de resposta da população à dinâmica sociodemográfica, os pesquisadores empregaram o conceito de vulnerabilidade.

"A ideia da vulnerabilidade está intrinsecamente associada à questão do risco social e ambiental. Nas várias linhas de pesquisa, avaliamos a questão do risco em relação às diversas linhas de investigação, como a exclusão socioespacial, a dinâmica da família – considerando a posição da mulher, por exemplo –, a questão ambiental e a mobilidade", disse Cunha à Agência FAPESP.

O grupo partiu da hipótese de que, para enfrentar os riscos, a população dispõe de reservas de capital social e humano caracterizadas por fatores como idade, arranjos familiares, nível educacional, tempo de residência e a existência de redes sociais e organizações comunitárias.

Segundo o pesquisador, enquanto a região metropolitana de São Paulo vem sendo tratada com bastante profundidade – em especial pelo Nepo e pelo Centro de Estudos da Metrópole (CEM), um dos Centros de Pesquisa Inovação e Difusão (Cepids) da FAPESP –, as regiões de Santos e Campinas são importantes aglomerações urbanas para as quais havia muito pouca produção na área sociodemográfica.

"Havia necessidade de cobrir essa lacuna no conhecimento a fim de fornecer subsídios para políticas públicas. A proposta era realizar um mapeamento da dinâmica sociodemográfica dessas regiões e o objetivo foi plenamente cumprido – tanto em relação à análise de dados secundários, como na realização de levantamentos amostrais", explicou.

Com a análise de fontes secundárias, em especial os censos de 1970, 1980, 1991 e 2000, os pesquisadores puderam produzir um retrato das características de expansão territorial das áreas urbanas, mapeando as zonas de vulnerabilidade dentro das áreas urbanas. Na segunda fase do projeto, foram feitos levantamentos amostrais da população das duas regiões.

A exploração dos dados secundários foi consubstanciada em dois produtos que agora estão disponíveis na internet. Um deles é o Atlas da Região Metropolitana, que apresenta um raio X das duas regiões.

"O Atlas deixou evidente que há de fato uma dinâmica metropolitana que vai além dos interesses individuais de cada município. Ele demonstrou que existe um cidadão metropolitano que precisa ser pensado como tal e que as políticas públicas devem ser pensadas em escala metropolitana. É um produto cuja função é menos analítica e mais informativa: disponibiliza um conjunto de informações muito útil para os prefeitos", disse.

O outro produto derivado da consolidação do conhecimento adquirida com os dados secundários é o livro Novas Metrópoles Paulistas – População, vulnerabilidade e segregação, organizado pelo professor da Unicamp.

"O livro apresenta uma coletânea de artigos que detalha nossas referências teóricas e metodológicas, consolidadas a partir de quatro grandes seminários realizados no decorrer do projeto. A segunda parte é dedicada à análise sociodemográfica, fornecendo ao leitor a visão do que são essas duas regiões em suas configurações socioespaciais. A terceira parte reúne estudos pontuais feitos pelos pesquisadores e pós-graduandos do grupo", disse.

Na segunda fase do projeto, os pesquisadores iniciaram o processo de produção da pesquisa domiciliar, visitando mais de 3.500 domicílios nas duas regiões.

"Nossa estratégia consistia em explorar ao máximo os dados disponíveis – para não corrermos riscos de 'reinventar a roda' – e em seguida aproveitar o aporte do Projeto Temático para fazer a pesquisa domiciliar – que é algo extremamente complexo e que demanda muitos recursos. A FAPESP nos deu essa possibilidade e conseguimos tantos dados que será necessário iniciar outro projeto para analisá-los", afirmou.

A heterogeneidade das duas regiões metropolitanas criou um desafio metodológico considerável. "Todo o plano amostral foi elaborado para falar da região como um todo e, a partir daí, fizemos uma estratificação, com zonas de vulnerabilidade configuradas por áreas que nem sempre são contíguas", disse Cunha.

Pela análise, baseada em dados estatísticos, foram definidas quatro zonas de vulnerabilidade em Campinas e três em Santos – todas acentuadamente heterogêneas. "A partir de agora, poderemos estudar as duas regiões como um todo, ou considerando as diferenças entre essas áreas. Envolvendo uma logística complexa, essa pesquisa domiciliar foi um trabalho muito árduo, desde a concepção do questionário até a realização da pesquisa de campo", disse

Os dados obtidos nas duas fases do projeto abriram portas para um grande esforço de pesquisa. A partir desses subsídios, há várias dissertações e teses atualmente em gestação. As que já foram defendidas foram incluídas no relatório final do projeto. 

Universalização marcante

Segundo o pesquisador do Nepo, a vulnerabilidade – conceito central no Projeto Temático – está, de modo geral, ligada à capacidade de resposta das famílias aos diversos tipos de riscos a elas impostas. Por isso, o grau de vulnerabilidade está relacionado à disponibilidade de ativos de que essas pessoas dispõem. "Vemos três fontes importantes de ativos: o mercado, o Estado e o que chamamos de capital social", disse.

A estabilidade do mercado de trabalho, por exemplo, é um ativo importante. A partir do Estado, a população também dispõe de ativos fundamentais, que vão além da renda, como a disponibilidade de saúde, habitação e educação. Quem tem menos acesso a esses ativos, está mais vulnerável.

"Os estudos de segregação socioespacial mostram que o lugar onde se vive tem grande impacto nas vidas das pessoas. Nessa geografia das oportunidades, o Estado também é uma fonte importante de ativos", afirmou Cunha.

A comunidade, ou capital social, segundo ele, é mais um ativo fundamental, capaz de tirar os cidadãos da condição de vulnerabilidade. "Uma pessoa pode mobilizar a comunidade em vários níveis, como uma mãe solteira que deixa seus filhos com vizinhos e parentes. Procuramos explorar a relação que as pessoas desenvolvem com sua comunidade em vários níveis. Reunimos muito material de pesquisa qualitativa. Agora esses dados estão disponíveis para outros estudos", apontou.

Entre os inúmeros dados levantados, um chamou a atenção dos pesquisadores: o tamanho das famílias vem sofrendo redução em ambas as regiões.

"Outro ponto que conseguimos mostrar é a heterogeneidade em termos de acesso a serviços de infraestrutura. No caso do acesso à água, por exemplo, notamos uma universalização marcante, mas encontramos diferenças importantes em relação à qualidade desse acesso – tanto em Santos como em Campinas", afirmou Cunha.

Mais informações: www.nepo.unicamp.br/vulnerabilidade


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