terça-feira, 3 de novembro de 2009

Futebol na periferia paulistana também se aprende nos games

Por Antonio Carlos Quinto
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Pesquisador acompanhou cotidiano de escolas de futebol ligadas a projetos sociais

Nas periferias de São Paulo, a prática e o aprendizado do futebol não se dá somente nos campos, mas também nos video games do jogo disponíveis em lan houses. "Além do que praticam e aprendem nas chamadas escolinhas de futebol, é comum nestes locais vermos garotos jogando futebol em vídeo game. E eles acabam levando algum aprendizado do jogo eletrônico, como esquemas táticos e posicionamentos, para a prática, no campo de jogo", afirma o cientista social Enrico Spaggiari. Desde o início de 2007, o pesquisador acompanhou o cotidiano de professores e jovens que participam de escolas de futebol ligadas a projetos sociais em Itaquera, Guaianases e Cidade Líder, bairros da Zona Leste da cidade.

Pela linguagem dos jovens durante as atividades nas escolas de futebol, foi possível perceber que muitos traziam informações dos games. Mas o acesso aos jogos eletrônicos não foi o único aspecto observado pelo pesquisador. Em seu estudo de mestrado Tem que ter categoria: construção do saber futebolístico, defendido no Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, sob orientação do professor Heitor Frúgoli Jr., Spaggiari manteve contato com jovens e professores das escolas de futebol para conhecer o processo de ensino e aprendizagem de futebol. "Acompanhei também o cotidiano desses garotos e percebi que a atividade futebol não se esgota nos treinamentos das 'escolinhas'. Além dos games, há o futebol de rua, o que é praticado na escola formal e em quadras. Existem cada vez menos campos de várzea na cidade", descreve.

A ausência cada vez maior dos campos de várzea pode ser uma explicação, segundo o pesquisador para a proliferação das escolas de futebol na cidade nos últimos 20 anos. Ele lembra que há muitas "escolas oficiais", franqueadas de clubes profissionais. "As escolas observadas, que oferecem a atividade gratuitamente, seguem o modelo de funcionamento das franqueadas", observa Spaggiari.

Saber pedagógico
Na maioria das escolas de futebol, as atividades são coordenadas pela comunidade e as aulas ficam por conta de ex-jogadores de futebol profissional. "Em alguns casos observamos a presença de professores de Educação Física atuando de forma voluntária", conta o cientista. Nas duas modalidades, segundo Spaggiari, foram observadas dificuldades no diálogo com as crianças e jovens. "Enquanto os ex-jogadores não possuem um 'saber pedagógico' suficiente para ir além do simples ensinamento, alguns professores não conseguem conquistar a plena confiança dos alunos. Muitos ex-jogadores foram ídolos dos pais dos alunos e isso proporciona credibilidade", destaca, lembrando que este fato chega a ser um dos atrativos para reunir as crianças.

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Além dos treinamentos na semana, crianças praticam o esporte nas ruas e quadras

A vida cotidiana destes jovens, de acordo com o cientista social, muitas vezes acaba precocemente com o sonho de uma profissionalização. Devido às suas condições sociais, muitos necessitam de trabalho. Além disso, as exigências dos clubes para que um garoto venha a se tornar um profissional são cada vez mais rígidas. "Foi-se o tempo em que um jovem com 18 ou até 20 anos poderia ser aproveitado por uma equipe. As escolhas acontecem cada vez mais cedo. A justificativa dos clubes é a de que quanto mais novo, menos vícios se tem no jeito de jogar futebol", explica Spaggiari.

Presença do Estado
Apesar de as iniciativas serem de parte do Estado ou da Prefeitura Municipal, Spaggiari alerta que a presença mais efetiva dos órgãos governamentais poderia ser muito positiva. Os representantes dos governos fornecem os materiais, enquanto a administração fica por conta das comunidades. "Isso abre espaço para pessoas que as vezes vendem falsos sonhos aos jovens, de profissionalização e de um futuro no futebol. Pude perceber que por vezes se considera a estrutura mais importante do que quem realmente é atendido, ou seja, a criança e o jovem", diz. Embora reconheça a importância de uma presença mais marcante de representantes governamentais, o pesquisador acredita que o futebol ainda está distante de ser um elemento capaz de superar a exclusão social.

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Cotidiano muitas vezes encerra precocemente sonho de profissionalização

É o caso de um discurso predominante de "tirar a criança da rua" como sendo um dos benefícios da atividade. No entanto, o que Spaggiari observou na prática é que os jovens acabam optando mesmo é por ficar menos tempo em suas casas. "Em muitos casos, os discursos dos garotos apontaram que o ficar em casa significava mais trabalho. Daí a opção pelo game na lan house e pela escola de futebol. Para boa parte dos pais, a escola de futebol significa que o jovem estará ocupado enquanto eles estiverem trabalhando, ausente de seus lares", relata o pesquisador. A formação da criança na periferia, segundo o cientista social, acaba sendo determinada pela rotina trabalho, escola e futebol. "É futebol o tempo todo, a semana inteira. Além dos treinamentos em quase todos os dias da semana, essas crianças ainda praticam o esporte nas ruas e quadras", reforça Spaggiari.

*Imagens cedidas pelo pesquisador


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