domingo, 27 de março de 2011

Livro traz perfil abrangente da imigração japonesa no Brasil

Valéria Dias | Agência USP

No próximo dia 31 acontecerá o lançamento de um dos livros mais abrangentes sobre a imigração japonesa já editado no país. A obra Imigrantes Japoneses no Brasil – Trajetória, Imaginário e Memória (Edusp, 772 pp, R$135,00), organizado pela professora Maria Luiza Tucci Carneiro e pela pesquisadora Marcia Yumi Takeuchi, ambas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, marca o final das comemorações do Centenário da Imigração Japonesa na USP, ocorrido em 2008, e que envolveu diversos eventos na Universidade.

Textos e artigos abordam vários aspectos da imigração japonesa no Brasil

"O livro reúne uma série de textos e artigos que abordam vários aspectos da imigração japonesa no Brasil, em diversas áreas do conhecimento, como História, Arquitetura, Psicologia, Artes Plásticas, Geografia, Patrimônio Histórico, além de farto material iconográfico", explica a professora Maria Luiza. "Esse material é formado não apenas por estudos de pesquisadores da USP, mas também de outras instituições de ensino e de vários estados brasileiros", completa.

Esses artigos mostram a história, a memória e a cultura da comunidade nipônica no Brasil, abordando o cotidiano, o trabalho e as manifestações culturais. Além de textos de Márcia e da professora Maria Luiza, o livro traz artigos dos seguintes autores: Ana Maria da Costa Leitão e Soraya Moura, Ana Paula Nascimento, André Souza Martinello e Ely Bergo de Carvalho, Berta Waldman, Boris Kossoy, Camila Rodrigues, Celina Kunioshi, Elena Shizuno, Federico Croci, Fernanda Torres Magalhães, Geraldo J. de Paiva, Gabriel Borba, Geraldo Mártires Coelho, Ismênia Martins, Jaelson Trindade, Koichi Mori, Luiz Felipe Arpuca, Maria Luiza Tucci Carneiro, Mariléia Franco Marinho Inoue, Michelle Odete dos Santos, Priscila Ferreira Perazzo, Renata William Santos do Vale, Rodrigo Ferreira da Silva, Rodrigo Rodrigues Tavares, Rogério Dezem, Satie Mizubuti, Tomoko Iyda Paganelli, Sedi Hirano, Yusien Chuang, além de fotos de autoria do fotógrafo alemão Theodor Preising.

De acordo com o professor Sedi Hirano, da FFLCH, o livro também aborda alguns "temas incômodos" e "esquecidos" ligados a imigração japonesa no Brasil, como o confinamento em campos de concentração brasileiros durante a segunda guerra, a perseguição da polícia política à Shindo Renmei (grupo terrorista organizado japonês criado no interior de São Paulo na década de 1940) e à comunidade nipônica durante a segunda guerra, além do preconceito. "Os japoneses foram retratos de uma maneira estereotipada e preconceituosa: era comum serem considerados como 'traiçoeiros', e chamados de 'macacos' e de 'ratos'", aponta Hirano.

Para o professor, a obra oferece suporte para intelectuais e cientistas aprofundarem os estudos sobre os preconceitos envolvendo o imigrante japonês, que assim como os negros, os árabes e os judeus, sofreram (e ainda sofrem) com atitudes preconceituosas. De uma certa forma, o livro ajuda a quebrar o tabu de que os imigrantes são sempre muito bem recebidos no Brasil. A professora Maria Luiza compartilha a ideia, lembrando que tanto na República Velha como na Era Vargas, o modelo ideal de homem brasileiro almejado pelo governo era branco, católico e ocidental, muito diferente do perfil do cidadão japonês, principalmente durante a segunda guerra, quando o Japão se uniu aos países do Eixo (Alemanha e Itália).

Iconografia
Um dos capítulos do livro, de autoria do professor Bóris Kossoy, da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, aborda a construção da realidade por meio de fotos. O texto apresenta álbuns de fotos produzidos por fotógrafos japoneses retratando a comunidade nipônica no Brasil. Esse material era enviado aos familiares que ficaram no Japão para mostrar que a condição social daqueles que haviam imigrado era próspera.

"Muitas imagens mostram um grupo de japoneses ao lado de um carro, ou no meio de uma plantação vestindo roupa social e terno. Era uma maneira de mostrar que estavam prosperando", destaca Maria Luiza. Segundo a professora, devem existir álbuns semelhantes e a publicação do livro pode fazer com que outras pessoas se sensibilizem, abrindo caminhos para que surjam novos documentos sobre a imigração japonesa no Brasil.

Outro destaque do livro são imagens dos documentos dos passageiros do Kasato Maru, navio que, em 1908, transportou o primeiro grupo de imigrantes japoneses ao Brasil, além de outros documentos pessoais, como cartas pedindo visto de entrada no país e processos de naturalização.

O livro, segundo Maria Luiza, é também uma homenagem à pesquisadora Márcia Yumi Takeuchi, que morreu em 2010 em decorrência de um acidente vascular cerebral (AVC), e que teve um papel fundamental tanto para a organização do livro como na realização de pesquisas sobre imigração japonesa no Brasil. No dia do lançamento, a família de Márcia vai realizar a doação oficial da biblioteca pessoal e de documentos sobre o tema pertencentes a pesquisadora para o Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação (LEER) da FFLCH. A partir desta data o arquivo Marcia Yumi Takeuchi ficará disponível aos pesquisadores, em geral, alé, de ser divulgado em site especial dedicado ao tema da imigração, projeto Fapesp coordenado pelo Prof. Dr. Sedi hirano.

O livro contou com apoio da Reitoria da USP, do Banco Santander/Real, do LEER, e da Comissão do Centenário da Imigração Japonesa na USP. O lançamento será na Livraria João Alexandre Barbosa (Rua da Reitoria, 374, Cidade Universitária, São Paulo), a partir das 18 horas.

Imagem:  Imigrantes japoneses na alfândega. Santos, 1937. Fotografia de Theodor Preising, do Acervo Douglas Aptekmann, São Paulo (Cedida pela pesquisadora)

Mais informações: (11) 3091-8598 ou email malutucci@gmail.com , com a professora Maria Luiza Tucci Carneiro 
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